
Os filmes de Park Chan-wook raramente permitem uma interpretação simples.
Em Oldboy, o diretor explorou até onde o desejo de vingança pode levar um ser humano. Em A Criada, transformou desejo e poder em um jogo de aparências e manipulação. Em Decisão de Partir, investigou amor, obsessão e perda através de um thriller policial.
Em No Other Choice, seu filme de 2025, Park parte de um ponto aparentemente muito mais cotidiano:
o trabalho.
Mais precisamente, o que pode acontecer quando uma pessoa perde o emprego que acreditava que teria pelo resto da vida.
O protagonista Man-su passou décadas trabalhando em uma empresa de papel e construiu uma vida confortável ao lado da família. Até que, de repente, perde o emprego durante um processo de reestruturação.
A partir daquele momento, tudo começa a desmoronar.
Ele precisa encontrar uma nova oportunidade, mas descobre que sua experiência já não é suficiente para garantir um lugar no mercado. A competição se torna cada vez mais intensa e, pouco a pouco, Man-su começa a enxergar os outros candidatos não como concorrentes, mas como obstáculos que precisam ser eliminados.
O resultado é uma história de violência.
Mas reduzir No Other Choice a um filme sobre assassinatos seria perder justamente aquilo que torna a obra de Park Chan-wook tão perturbadora.
O mais assustador é que Man-su não começa como um monstro.

Ele começa como uma pessoa comum.
Eu tenho uma família
Man-su não quer conquistar o mundo.
Ele quer voltar a trabalhar.
Quer manter sua casa, sua rotina e a vida que construiu com a família. O problema é que aquilo que durante décadas parecia uma estabilidade conquistada começa a desaparecer de uma hora para outra.
Sua experiência profissional já não garante uma nova vaga. Sua idade passa a ser um obstáculo. E a responsabilidade de sustentar uma família transforma a procura por emprego em uma questão de sobrevivência.
É nesse ponto que o filme ultrapassa as fronteiras da Coreia do Sul.
No Brasil, assim como em muitos outros países, perder um emprego não significa simplesmente deixar de receber um salário.
Significa pensar no aluguel, nas contas da casa, nos filhos, na alimentação, na saúde e em todas as outras responsabilidades que continuam existindo mesmo quando a renda desaparece.
E existe uma questão ainda mais difícil para quem passou muitos anos na mesma profissão:
“Eu ainda tenho capacidade para trabalhar. Mas o mercado ainda precisa de mim?”
É uma pergunta que No Other Choice transforma em uma espécie de pesadelo.
Por que Park Chan-wook transforma tudo em uma comédia tão cruel?
Uma das características mais interessantes do filme é justamente a maneira como Park mistura situações extremamente violentas com humor.
O comportamento de Man-su pode ser assustador, mas também existe algo absurdo e quase ridículo em determinadas situações.
É uma característica recorrente do cinema de Park Chan-wook: apresentar acontecimentos terríveis através de uma linguagem visual sofisticada, inesperada e, muitas vezes, estranhamente engraçada.
O espectador pode rir em um momento e, segundos depois, perceber que estava rindo de uma situação profundamente perturbadora.
E é exatamente aí que o filme começa a funcionar de maneira diferente.
Porque, em determinado momento, surge uma pergunta incômoda:
E se fosse comigo?
Não significa imaginar que alguém realmente cometeria os mesmos atos de Man-su.
A pergunta é muito mais simples.
O que faríamos se tudo aquilo que consideramos seguro desaparecesse?

Uma história coreana que também fala com o Brasil
A história de No Other Choice está profundamente ligada à sociedade sul-coreana, mas a ansiedade apresentada pelo filme não pertence exclusivamente à Coreia.
A sensação de insegurança profissional atravessa fronteiras.
Empresas reduzem custos, profissões desaparecem, novas tecnologias modificam funções e trabalhadores experientes precisam competir novamente por posições que antes pareciam garantidas.
O filme também utiliza a transformação tecnológica e o avanço da inteligência artificial como parte desse cenário de incerteza.
Por isso, Man-su pode ser visto como um personagem coreano, mas também como uma representação de uma ansiedade muito mais ampla.
Ele é o profissional que construiu sua identidade em torno do trabalho.
É a pessoa que, depois de décadas exercendo a mesma profissão, descobre que sua experiência não necessariamente garante um lugar no futuro.
É alguém que sente que precisa esconder seu fracasso da própria família.
E, principalmente, é alguém que começa a acreditar que não existe outra saída.

O significado por trás de “No Other Choice”
O próprio título do filme talvez seja sua maior provocação.
No Other Choice.
“Não havia outra escolha.”
É uma frase que usamos constantemente para justificar decisões difíceis.
Quando perdemos uma oportunidade, quando precisamos aceitar uma situação desagradável ou quando somos obrigados a fazer algo que não queríamos, dizemos que “não havia outra escolha”.
Park Chan-wook leva essa expressão ao extremo.
Man-su começa a justificar suas decisões porque acredita que está simplesmente fazendo o necessário para sobreviver.
Mas o filme nos obriga a questionar essa lógica.
Existe realmente uma situação em que não existe outra escolha?
Ou será que determinadas estruturas sociais fazem com que uma pessoa passe a acreditar que só existe uma única saída?
Essa é uma das questões mais interessantes de No Other Choice.
A violência do filme não nasce simplesmente da maldade de um indivíduo. Ela nasce também de uma estrutura em que perder significa ficar para trás, e ficar para trás pode significar perder tudo.

Muito mais do que um filme sobre desemprego
É justamente por isso que No Other Choice funciona melhor quando não é interpretado apenas como uma história sobre desemprego.
O filme fala sobre competição.
Sobre classe social.
Sobre masculinidade.
Sobre a necessidade de sustentar uma família.
Sobre envelhecer em um mercado que procura constantemente pessoas mais jovens.
E sobre a transformação do trabalho em uma parte tão importante da identidade que, quando ele desaparece, a própria pessoa começa a desaparecer junto.
Park transforma todas essas questões em um thriller de humor negro.
O resultado é desconfortável porque conseguimos reconhecer elementos da realidade dentro de uma história que, em outros aspectos, parece absurda.

Por que revisitar o filme agora?
Quando No Other Choice chegou aos cinemas, sua história poderia parecer uma sátira extrema.
Um homem perde o emprego e começa a eliminar seus concorrentes.
É uma premissa tão exagerada que poderia facilmente ser tratada apenas como uma provocação cinematográfica.
Mas, com algum distanciamento, o filme ganha outra dimensão.
A discussão sobre estabilidade profissional, automação, inteligência artificial e insegurança econômica continua presente em diferentes partes do mundo.
E isso faz com que a história de Man-su pareça menos distante.
Talvez a parte mais assustadora do filme nem seja a violência.
Talvez seja o momento em que uma pessoa comum percebe que o lugar que ocupava durante décadas simplesmente deixou de existir.
Park Chan-wook transforma esse momento em uma comédia negra, violenta e visualmente precisa.
E, no processo, faz uma pergunta que não pertence apenas à Coreia do Sul:
Em uma sociedade onde todos precisam competir para sobreviver, até onde podemos dizer que uma escolha foi realmente “a única possível”?
Talvez seja justamente essa pergunta que faça No Other Choice merecer uma nova leitura hoje.

Onde assistir:
A Única Saída (No Other Choice) está disponível no Brasil pelo MUBI. O filme também pode ser alugado ou comprado pela Apple TV, com legendas em português do Brasil e Prime Video tambem.
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