Voltar
Revista

O orgulho de uma atriz por sua família trouxe de volta à tona uma pergunta que a sociedade coreana ainda discute.

Por que os registros de um antepassado de 100 anos atrás continuam sendo uma questão tão sensível na Coreia do Sul?

Especial
O orgulho de uma atriz por sua família trouxe de volta à tona uma pergunta que a sociedade coreana ainda discute.
Cloud

Cloud

Publicado
14 ago 2026
Ler
14 Min
Compartilhar

A recente controvérsia envolvendo a atriz sul-coreana Ha-young começou como uma história familiar, mas rapidamente se transformou em uma discussão muito maior sobre memória histórica, colaboração com o colonialismo japonês e um passado que a Coreia do Sul ainda não considera completamente resolvido.

Ha-young havia falado publicamente sobre sua família, mencionando que vinha de quatro gerações de médicos e que seu bisavô, o médico Ahn Sang-ho, havia exercido a medicina em Seul e chegado a atender o imperador Gojong.

A partir dessas declarações, registros históricos sobre Ahn Sang-ho voltaram a circular na internet.

Entre eles estão documentos que mostram sua relação com organizações consideradas pró-japonesas durante o período colonial, além de registros publicados pelo jornal Maeil Shinbo, ligado ao governo colonial japonês.

Também voltaram a ser discutidas questões mais controversas envolvendo sua relação com a corte imperial e seu papel nos últimos momentos da vida de Gojong.

O caso acabou ultrapassando os limites da vida privada de uma atriz.

Ele trouxe novamente à superfície uma questão particularmente sensível para a sociedade coreana:

por que as ações de uma pessoa que viveu há mais de um século ainda podem provocar tanta controvérsia hoje?

Nota de desculpas da atriz Ha-young (Reprodução/Instagram)
Nota de desculpas da atriz Ha-young (Reprodução/Instagram)


Por que a palavra “chinilpa” tem um peso tão grande na Coreia?

Para compreender o tamanho da repercussão, é necessário voltar à história moderna da Coreia.

Entre 1910 e 1945, a Península Coreana esteve sob domínio colonial do Império Japonês.

Durante esses 35 anos, o governo colonial interferiu profundamente na sociedade coreana. Educação, imprensa, cultura, instituições políticas e economia foram submetidas ao sistema colonial.

Ao mesmo tempo, existiram coreanos que colaboraram de diferentes maneiras com as autoridades japonesas.

É nesse contexto que surgiu o termo “chinilpa”, utilizado na Coreia para designar pessoas que colaboraram com o imperialismo japonês.

Por isso, o conceito não pode ser simplesmente traduzido como alguém que “gostava do Japão”.

Seu significado está diretamente relacionado à colaboração com o sistema colonial.

E essa diferença é fundamental.

Na Coreia do Sul, a discussão sobre os chinilpa está ligada não apenas ao passado, mas também à maneira como poder, riqueza, prestígio e posições sociais foram transmitidos depois da libertação do país, em 1945.

Por isso, quando registros sobre uma figura histórica considerada colaboracionista reaparecem, o debate rapidamente ultrapassa a biografia daquela pessoa.

Ele se transforma em uma discussão sobre como a sociedade coreana lidou com seu próprio passado colonial.

Atriz Ha-young (Fonte: Instagram)
Atriz Ha-young (Fonte: Instagram)

A foto de família de Ahn Sang-ho publicada no jornal Maeil Shinbo
O casal Ahn Sang-ho e seus filhos (10 de dezembro de 1918, Maeil Shinbo)

“Ele não está no Dicionário de Pessoas Pró-Japonesas” não encerra a questão

Um dos pontos mais discutidos no caso de Ahn Sang-ho é justamente o fato de seu nome não constar no Dicionário de Pessoas Pró-Japonesas (Chinil Inmyeong Sajeon), publicado pelo Instituto de Pesquisa sobre Problemas Históricos da Coreia.

À primeira vista, isso poderia parecer suficiente para concluir que não existiam atividades pró-japonesas relevantes em sua trajetória.

Mas a questão é mais complexa.

O Chinil Inmyeong Sajeon não é uma lista de todas as pessoas que tiveram qualquer relação com o Japão durante o período colonial.

A obra foi elaborada a partir de critérios específicos e possui forte presença de políticos, burocratas, policiais, militares, empresários, intelectuais e pessoas diretamente ligadas às estruturas de poder colonial.

Profissionais liberais e especialistas também aparecem em determinados casos, mas a ausência de uma pessoa na obra não significa automaticamente que não existam registros de colaboração ou atividades pró-japonesas em sua trajetória.

Por isso, o fato de Ahn Sang-ho não estar incluído na obra deve ser tratado simplesmente como um dado sobre os critérios de classificação da publicação, e não como uma prova de que ele não teve atividades de colaboração.

A pergunta mais importante, portanto, não é:

“Ele está ou não está no livro?”

Mas sim:

“O que os documentos históricos mostram que ele realmente fez?”


Os registros do Maeil Shinbo são especialmente importantes

Entre os documentos que voltaram a chamar atenção está uma reportagem publicada em dezembro de 1918 pelo Maeil Shinbo, jornal ligado ao governo colonial japonês.

O periódico publicou uma série de matérias apresentando famílias consideradas exemplos da chamada “ilseon ilche”, conceito utilizado pela administração colonial para promover a ideia de uma integração entre japoneses e coreanos.

O contexto histórico era particularmente significativo.

O casamento entre o príncipe herdeiro coreano Yi Eun e a princesa japonesa Masako, posteriormente conhecida como Yi Bang-ja, estava sendo utilizado pelo governo colonial como parte de uma narrativa de aproximação e integração entre as duas casas imperiais.

Dentro dessa estratégia de propaganda, o jornal procurava apresentar famílias coreanas que representassem esse ideal.

A família de Ahn Sang-ho apareceu entre esses exemplos.

O aspecto mais importante não é simplesmente o fato de ele ter se casado com uma japonesa.

O que chama atenção é a maneira como o próprio jornal colonial apresentou essa família.

Ela foi utilizada como exemplo de uma convivência ideal entre japoneses e coreanos, dentro da lógica de integração promovida pelo governo colonial.

Hoje, olhando para esse material histórico, é possível compreender que não se tratava apenas de uma reportagem social sobre uma família.

Ela fazia parte de um discurso político e propagandístico maior.

E Ahn Sang-ho apareceu dentro dessa narrativa.

Maeil Shinbo
Artigo publicado no jornal Maeil Shinbo (10 de dezembro de 1918)
  • Sou exatamente igual a um japonês. Atualmente não tenho uma única roupa coreana e não consigo comer comida picante de jeito nenhum.
  • Os meus cinco filhos usam exclusivamente o japonês em casa e não sabem falar nada de coreano; estou os criando inteiramente como uma família japonesa.
  • Como não convivo muito com os coreanos, não passo por nenhum inconveniente. Será que isso pode ser chamado de uma sorte em meio ao infortúnio?

— Dezembro de 1918, trecho de entrevista de Ahn Sang-ho no Maeil Shinbo

Seria possível dizer que ele era apenas um médico que foi levado pelas circunstâncias?

Essa é uma das perguntas que surgiram com o ressurgimento desses documentos.

Ahn Sang-ho estudou medicina no Japão e se tornou uma figura importante na introdução da medicina ocidental na Coreia. Também atuou como médico da corte e esteve ligado ao ambiente da família imperial.

Por outro lado, existem registros de sua participação na Daejeong Chinmokhoe, organização criada em 1916 e considerada de caráter pró-japonês.

Quando colocamos diferentes documentos lado a lado, surge uma imagem mais complexa.

De um lado, existe o médico moderno que desempenhou um papel relevante na história da medicina coreana.

Do outro, aparecem registros de sua participação em uma organização pró-japonesa, sua exposição na imprensa colonial como exemplo de uma família ligada à política de integração entre japoneses e coreanos e sua proximidade com o sistema imperial durante o período colonial.

Isso não significa que todos os detalhes de sua trajetória possam ser resumidos em uma única palavra.

Mas significa que existem elementos históricos suficientes para levantar questões sérias sobre seu grau de colaboração com o sistema colonial japonês.

Atriz Ha-young (Fonte: Instagram)
Atriz Ha-young (Fonte: Instagram)

E existe ainda a questão da morte de Gojong

Talvez nenhum outro aspecto da história de Ahn Sang-ho seja tão sensível quanto sua relação com os últimos momentos do imperador Gojong.

Gojong morreu em janeiro de 1919, poucos meses antes do início do Movimento de 1º de Março, um dos maiores movimentos de resistência contra o domínio japonês.

Ahn Sang-ho estava entre os médicos que atenderam o imperador em seus últimos momentos.

Depois da morte de Gojong, começaram a circular rapidamente rumores de que ele havia sido envenenado.

A chamada “teoria do envenenamento de Gojong” tornou-se uma das questões mais controversas da história moderna coreana.

E o nome de Ahn Sang-ho também apareceu associado a essas suspeitas.

Mas aqui é fundamental fazer uma distinção.

Não é possível afirmar como fato histórico comprovado que Ahn Sang-ho tenha participado do assassinato ou envenenamento de Gojong.

Não existe uma investigação independente realizada na época que permita estabelecer essa conclusão de maneira definitiva.

Também não existe uma prova científica capaz de resolver o caso de acordo com os padrões modernos.

O problema é que a própria morte de Gojong ocorreu dentro de um contexto colonial em que uma investigação independente, transparente e moderna praticamente não existia.

As autoridades coloniais japonesas controlavam as instituições e apresentaram sua própria explicação para a morte.

Ao mesmo tempo, rumores de envenenamento se espalharam rapidamente entre a população coreana.

Por isso, mais de cem anos depois, a questão continua cercada de incertezas.

O correto, historicamente, é separar três coisas:

o que foi documentado, o que foi relatado na época e aquilo que permanece como hipótese.

Transformar a suspeita em fato seria incorreto.

Mas apagar a existência da suspeita e das circunstâncias históricas que permitiram seu surgimento também seria uma simplificação.

Imperador Gojong (1852~1919)
Imperador Gojong (1852~1919)

As histórias envolvendo outros membros da elite colonial

A trajetória de Ahn Sang-ho também passou a ser discutida em relação a outros personagens importantes daquele período, incluindo Lee Wan-yong, um dos mais conhecidos colaboradores coreanos do Império Japonês.

Existem alegações de que Ahn Sang-ho teria participado do tratamento médico de Lee Wan-yong, inclusive em procedimentos relacionados a seus ferimentos.

O debate atual está repleto de informações de diferentes níveis de confiabilidade. Algumas são documentadas; outras são interpretações posteriores; outras permanecem como alegações.

Lee Wan-yong, Traidor do Império Coreano
Lee Wan-yong(1858-1926), Traidor do Império Coreano

O problema não termina com Ahn Sang-ho

À medida que a controvérsia cresceu, outras questões relacionadas à família também começaram a aparecer.

Isso tornou o caso ainda mais sensível.

Mas existe um ponto importante aqui: o fato de novas alegações surgirem não significa que todas elas sejam verdadeiras.

Em uma época de redes sociais, uma informação histórica pode ser publicada ao lado de uma interpretação, que rapidamente é compartilhada como se fosse um fato comprovado.

Por isso, quanto maior a repercussão, maior deveria ser a necessidade de separar documentação, interpretação e especulação.

Mas por que a controvérsia chegou até Ha-young?

Essa talvez seja a parte mais delicada de todo o episódio.

Ha-young não escolheu as ações de seu bisavô.

Ela nasceu décadas depois de sua morte.

Não participou de nenhuma decisão tomada durante o período colonial e não pode ser responsabilizada pelos atos de um antepassado.

Por isso, transformar automaticamente a descendente em responsável pela história de seu bisavô seria injusto.

Mas existe outra dimensão na controvérsia.

O problema não surgiu apenas porque ela era descendente de Ahn Sang-ho.

A questão ganhou força porque a história familiar havia sido apresentada publicamente de uma determinada maneira e, posteriormente, registros históricos diferentes começaram a aparecer.

Quando a primeira reação foi negar as alegações antes de uma verificação completa dos documentos, e depois houve o reconhecimento de que determinados registros realmente existiam, a discussão ganhou uma nova dimensão.

A questão passou a ser também sobre como figuras públicas e suas famílias lidam com histórias familiares que possuem aspectos controversos.

Atriz Ha-young (Reprodução/Instagram)
Atriz Ha-young (Reprodução/Instagram)

Na Coreia, o passado ainda não terminou

É justamente aqui que o caso deixa de ser apenas uma notícia sobre uma atriz.

A Coreia do Sul foi libertada do domínio colonial japonês há mais de 80 anos.

Mesmo assim, a sociedade continua discutindo quem colaborou, quem resistiu, quem se beneficiou do sistema colonial e o que aconteceu com essas pessoas depois de 1945.

Uma das razões é que a libertação não resolveu automaticamente todas as consequências do período colonial.

Questões relacionadas à propriedade, riqueza, posição social, reconhecimento público e memória histórica permaneceram por décadas.

Enquanto isso, muitos descendentes de ativistas da independência enfrentaram dificuldades econômicas e sociais durante o período posterior à libertação.

Essa diferença alimentou uma sensação de injustiça que ainda existe em parte da sociedade coreana.

Por isso, quando o passado de uma família conhecida volta à superfície, a discussão rapidamente deixa de ser apenas familiar.

Ela se conecta a uma questão maior:

quem herdou o quê da história colonial?

A Coreia ainda sofre com um passado que não conseguiu encerrar

Talvez seja essa a parte mais difícil de explicar para quem observa a Coreia de fora.

Para muitos estrangeiros, pode parecer exagerado que uma sociedade ainda discuta acontecimentos ocorridos há cem anos.

Mas a questão não é simplesmente “não conseguir esquecer o passado”.

O problema é que muitos coreanos acreditam que determinadas questões fundamentais nunca foram completamente resolvidas.

Quem colaborou com o colonialismo?

Quem foi punido?

Quem manteve seus privilégios?

Quem perdeu tudo depois da libertação?

Quais famílias continuaram acumulando riqueza e influência?

E quais famílias de ativistas pela independência foram deixadas para trás?

Essas perguntas continuam presentes na memória coletiva.

É por isso que documentos antigos podem voltar a provocar debates contemporâneos.

Não porque a sociedade queira necessariamente punir pessoas que nasceram décadas depois.

Mas porque ainda existe uma sensação de que a história não recebeu uma conclusão satisfatória.


A questão deveria ser “punir os descendentes”?

Provavelmente não.

Ha-young não é Ahn Sang-ho.

Ela não pode ser responsabilizada pelas escolhas de seu bisavô.

Ao mesmo tempo, reconhecer isso não significa que os atos de Ahn Sang-ho devam ser esquecidos, relativizados ou apagados.

As duas coisas podem coexistir.

É possível investigar criticamente o passado de uma pessoa sem transformar seus descendentes em culpados.

E é possível reconhecer que um descendente não possui responsabilidade histórica sem transformar um passado controverso em uma história conveniente.

Talvez a forma mais saudável de lidar com esse tipo de situação seja justamente essa:

preservar os fatos, reconhecer as dúvidas e separar a responsabilidade histórica da responsabilidade individual.

Atriz Ha-young (Fonte: Instagram)
Atriz Ha-young (Fonte: Instagram)

O que esse caso realmente revela

A controvérsia envolvendo Ha-young começou com uma história familiar.

Mas acabou revelando algo muito maior sobre a Coreia do Sul.

Um documento publicado há mais de cem anos pode reaparecer nas redes sociais e mudar completamente a maneira como uma família é percebida.

Uma antiga lista de membros de uma organização pode voltar a ser investigada.

Uma reportagem de jornal colonial pode ganhar um novo significado.

E uma pessoa que durante décadas foi lembrada principalmente como médico pode passar a ser analisada também por suas relações com o sistema colonial.

É exatamente por isso que a história continua importante.

Não para criar uma espécie de culpa hereditária, mas para compreender como as escolhas individuais se relacionaram com estruturas de poder.

CLOUD INSIGHT

A controvérsia envolvendo Ha-young não deveria ser reduzida a uma manchete sobre “a descendente de um colaborador japonês”.

O caso é mais profundo.

Ele mostra como a Coreia do Sul ainda convive com uma história colonial que, apesar de ter terminado oficialmente em 1945, continua presente na memória, na política, nas famílias e até na cultura popular.

ÚLTIMAS POSTAGENS

14 ago 2026
Filme
Filme

Quando falamos sobre a história moderna da Coreia, existe um período impossível de ignorar: os 36 anos de domínio colonial japonês, entre 1910 e ...

A controvérsia envolvendo a atriz sul-coreana Ha-young e os registros sobre seu bisavô, o médico Ahn Sang-ho, trouxe novamente à tona casos de art...

A recente controvérsia envolvendo a atriz sul-coreana Ha-young começou como uma história familiar, mas rapidamente se transformou em uma discussão...