A controvérsia envolvendo a atriz sul-coreana Ha-young e os registros sobre seu bisavô, o médico Ahn Sang-ho, trouxe novamente à tona casos de artistas coreanos cujos familiares tiveram seus antecedentes relacionados à colaboração com o Japão durante o período colonial.
Nos últimos dias, veículos de imprensa sul-coreanos voltaram a mencionar, ao lado do caso de Ha-young, os nomes dos atores Kang Dong-won e Lee Ji-ah, além do músico Jeon Beom-sun, vocalista da banda Yangbans.
As histórias familiares são bastante diferentes. Em alguns casos, os antepassados estão registrados no Dicionário de Pessoas Pró-Japonesas (Chinil Inmyeong Sajeon). Em outro, o próprio artista revelou publicamente sua origem familiar.
Também são diferentes os momentos em que essas histórias vieram a público e a maneira como cada artista lidou com elas.
Existe, porém, um ponto em comum.
Por trás dos nomes de artistas que fazem parte da cultura popular coreana contemporânea, registros de pessoas que viveram há quase ou mais de um século voltaram a aparecer.

Kang Dong-won — os registros sobre seu bisavô materno, Lee Jong-man
O caso de Kang Dong-won é um dos mais conhecidos quando se fala sobre controvérsias envolvendo o passado familiar de artistas coreanos.
Em 2017, vieram a público registros sobre seu bisavô materno, Lee Jong-man.
Lee Jong-man foi presidente da Daedong Mining Company e teve registros de colaboração com o Japão durante o período colonial, incluindo doações destinadas ao financiamento da guerra. Seu nome consta no Dicionário de Pessoas Pró-Japonesas.
Publicações sobre o passado de Lee Jong-man começaram a circular amplamente na internet. A controvérsia aumentou depois que a YG Entertainment, então responsável pela carreira de Kang Dong-won, solicitou a retirada de determinadas publicações.
Posteriormente, a equipe do ator pediu desculpas pela forma como a questão havia sido tratada inicialmente, enquanto Kang Dong-won afirmou que não conhecia adequadamente os fatos históricos relacionados ao seu bisavô.
A história familiar de Kang Dong-won, entretanto, possui outra dimensão.
Do lado materno de sua família também existe uma ligação com No Won-pil, conhecido como ativista pela independência da Coreia.
Por isso, sua árvore genealógica não pode ser resumida simplesmente como a história de uma família ligada ao colaboracionismo. Ela reúne pessoas que tiveram trajetórias históricas bastante diferentes.
Na época, essa característica também fez parte da discussão pública sobre o caso.
O centro da controvérsia não estava propriamente nas ações de Kang Dong-won, mas na maneira como os registros históricos de diferentes membros de sua família passaram a aparecer associados ao nome de uma celebridade.

Lee Ji-ah — os registros sobre seu avô, Kim Sun-heung
O caso da atriz Lee Ji-ah apresenta outra trajetória.
Seu avô paterno, Kim Sun-heung, teve registros de doações destinadas à defesa nacional e à entrega de recursos para a aquisição de aviões militares durante o período colonial japonês. Seu nome também foi incluído no Dicionário de Pessoas Pró-Japonesas.
A controvérsia envolvendo Kim Sun-heung ganhou grande repercussão inicialmente em 2011.
Desde então, os registros sobre seu avô passaram a ser mencionados periodicamente em relação ao nome de Lee Ji-ah.
Em 2025, a história familiar voltou a ganhar atenção.
Desta vez, reportagens também abordaram uma disputa judicial envolvendo membros da família e terras que teriam sido deixadas pelo avô de Lee Ji-ah.
A atriz posteriormente se manifestou sobre o passado de seu avô.
Ela afirmou que pedia desculpas como descendente e declarou que, caso determinadas propriedades tivessem sido adquiridas durante o período colonial por meio de atividades relacionadas ao regime japonês, considerava que deveriam ser devolvidas ao Estado.
O caso de Lee Ji-ah passou, portanto, a envolver não apenas registros históricos sobre um antepassado, mas também questões relacionadas ao patrimônio familiar.

Jeon Beom-sun — o artista que revelou sua própria história familiar
O músico Jeon Beom-sun, vocalista da banda Yangbans, representa um caso um pouco diferente.
Em abril de 2026, durante sua participação em um canal do YouTube, ele revelou publicamente que seu ancestral materno de cinco gerações anteriores era Lee In-jik, escritor de Hyeolui Nu (A Lágrima de Sangue) e uma figura conhecida por sua colaboração com o Japão durante o período colonial.
Lee In-jik ocupa uma posição particularmente complexa na história cultural coreana.
Ele é conhecido como um dos escritores importantes da literatura coreana moderna e autor de Hyeolui Nu. Ao mesmo tempo, manteve relações próximas com Lee Wan-yong e desenvolveu atividades consideradas colaboracionistas durante o domínio japonês.
Jeon Beom-sun contou que não conhecia essa parte da história de sua família até a época da universidade.
Segundo seu relato, seu interesse pela história coreana começou a se aprofundar durante seus estudos nos Estados Unidos, quando conheceu a trajetória do missionário americano Homer Hulbert, conhecido por seu envolvimento com a independência coreana.
Depois de retornar à Coreia e desenvolver atividades relacionadas a Hulbert, ele teria descoberto a história de sua própria família por meio de sua mãe.
A história também apareceu em seu livro 『Jeon Beom-sun's Korean History Therapy』, no qual o músico fala sobre sua relação pessoal com a história coreana.
Nesse sentido, seu caso se diferencia dos dois anteriores.
Em vez de descobrir sua história familiar depois que ela foi revelada pela imprensa, foi o próprio artista quem decidiu falar publicamente sobre ela.
É justamente por isso que seu nome voltou a ser mencionado após a recente controvérsia envolvendo Ha-young.

Famílias diferentes, registros do mesmo período histórico
Quando os três casos são colocados lado a lado, as diferenças ficam claras.
O bisavô materno de Kang Dong-won, Lee Jong-man, foi um empresário que teve registros de doações destinadas ao esforço de guerra japonês e foi incluído no Dicionário de Pessoas Pró-Japonesas.
O avô de Lee Ji-ah, Kim Sun-heung, também teve registros de contribuições para o esforço militar japonês e foi incluído na mesma publicação.
O ancestral de cinco gerações de Jeon Beom-sun, Lee In-jik, é conhecido como escritor, mas também ficou registrado na história por suas relações com Lee Wan-yong e por suas atividades colaboracionistas.
E, em 2026, surgiu a controvérsia envolvendo o bisavô de Ha-young, Ahn Sang-ho.
São pessoas de diferentes gerações, profissões e posições sociais.
Mas seus nomes voltaram ao presente por uma razão semelhante:
seus descendentes se tornaram figuras conhecidas da cultura popular coreana.
Por que o passado familiar de celebridades recebe tanta atenção?
Na Coreia do Sul, uma celebridade pode ser inicialmente conhecida apenas pelo seu trabalho.
Mas, à medida que sua popularidade cresce, aspectos de sua vida pessoal também passam a despertar interesse público.
Origem familiar, cidade natal, escolas frequentadas, profissão dos pais, patrimônio e até a história dos antepassados podem acabar sendo investigados.
Quando se trata de antecedentes relacionados ao colaboracionismo com o Japão, a questão ganha uma dimensão ainda maior.
Isso acontece porque a discussão sobre essas pessoas não se limita às suas biografias individuais.
Ela está relacionada à maneira como a sociedade coreana enfrentou — ou não enfrentou completamente — o legado do período colonial.
Por isso, quando registros sobre um antepassado de uma celebridade são descobertos, uma história que parecia pertencer apenas ao passado pode repentinamente se conectar à cultura popular contemporânea.
Foi o que aconteceu com Kang Dong-won.
Depois com Lee Ji-ah.
Mais recentemente, com Jeon Beom-sun.
E agora, novamente, com Ha-young.
Ha-young não foi a primeira
A recente controvérsia fez com que veículos de imprensa sul-coreanos recuperassem histórias anteriores.
Depois que o caso de Ha-young ganhou repercussão em agosto de 2026, diferentes meios voltaram a publicar informações sobre Kang Dong-won e Lee Ji-ah, enquanto as declarações recentes de Jeon Beom-sun também passaram a ser mencionadas.
O interessante é que nenhuma dessas histórias possui exatamente o mesmo desfecho.
Alguns descobriram tardiamente os antecedentes de seus familiares.
Outros se manifestaram publicamente sobre eles.
Outro decidiu falar por iniciativa própria sobre a própria história familiar e transformá-la em parte de sua relação com a história coreana.
E, cada vez que uma nova controvérsia surge, os casos anteriores voltam a ser lembrados.
O resultado é que documentos produzidos há décadas ou até mais de um século retornam ao debate público.

Nomes que continuam presentes na memória
Durante muito tempo, a questão do colaboracionismo com o Japão esteve principalmente associada à política e à historiografia.
Com a expansão global da cultura coreana, entretanto, essa história passou a reaparecer também dentro das famílias de atores, cantores e outros artistas.
Nomes que antes apareciam apenas em livros de história ou documentos antigos passaram a surgir ao lado de algumas das figuras mais conhecidas da cultura popular coreana.
E, nesse momento, a história deixa de parecer distante.
Ela passa a estar conectada a pessoas que fazem parte da vida cultural contemporânea.
Antes de Ha-young, houve Kang Dong-won, Lee Ji-ah e Jeon Beom-sun.
E, sempre que novos documentos forem descobertos, histórias semelhantes poderão voltar a aparecer.
Cada novo caso leva a sociedade coreana novamente aos jornais antigos, listas de nomes, registros familiares e documentos históricos.
É um processo que mostra como o período colonial japonês continua presente na memória coletiva da Coreia do Sul.
Não apenas como um capítulo encerrado nos livros de história, mas como algo que ainda pode reaparecer na vida pública contemporânea.
CLOUD INSIGHT
Antes de Ha-young, outros artistas coreanos já haviam sido confrontados com registros relacionados ao passado de suas famílias.
Os casos de Kang Dong-won, Lee Ji-ah e Jeon Beom-sun são diferentes. Um descobriu posteriormente os antecedentes de seu familiar, outro se manifestou publicamente sobre o passado do avô, enquanto outro decidiu revelar sua própria história familiar.
Mas, quando essas histórias voltam a ser lembradas, existe um ponto em comum: a proximidade entre o presente de uma pessoa e o passado de sua família na sociedade coreana.
Registros produzidos há cem anos voltaram ao debate público por meio dos nomes de artistas contemporâneos.
E esses registros mostram que a história do período colonial japonês ainda permanece conectada ao presente da Coreia do Sul.
Não apenas como memória histórica, mas também como parte das histórias familiares que continuam surgindo dentro da cultura popular.