Quando falamos sobre a história moderna da Coreia, existe um período impossível de ignorar: os 36 anos de domínio colonial japonês, entre 1910 e 1945.
Durante esse período, a sociedade coreana passou por profundas transformações em áreas como política, economia, educação e cultura. Ao mesmo tempo, diferentes movimentos surgiram para recuperar a independência. Havia aqueles que escolheram a luta armada, enquanto outros atuavam por meio da diplomacia, da educação, da imprensa ou da preservação cultural.
O cinema sul-coreano voltou diversas vezes a essa história.
Alguns filmes colocaram personagens históricos reais no centro da narrativa. Outros reuniram diferentes experiências do movimento de independência em personagens fictícios. Há obras que utilizam espionagem e ação para representar a tensão daquele período, enquanto outras mostram como a língua e a cultura também se tornaram campos de resistência.
Entre essas produções, selecionamos sete filmes que apresentam diferentes aspectos da história da independência coreana.
01. Assassination — aqueles que escolheram lutar pela independência

A história se passa em 1933 e acompanha um grupo de combatentes da independência que recebe a missão de assassinar colaboradores do governo colonial japonês e um oficial do Exército Imperial Japonês.
Os personagens interpretados por Jun Ji-hyun, Lee Jung-jae e Ha Jung-woo — Ahn Ok-yoon, Yeom Seok-jin e Hawaii Pistol — não são simplesmente reproduções de figuras históricas reais.
O filme, porém, utiliza esses personagens para condensar diferentes aspectos da situação enfrentada pelos ativistas pela independência naquele período.
Um dos elementos mais interessantes da obra é a maneira como ela aborda o período posterior à libertação.
A história sugere que, mesmo depois da derrota do Japão, os conflitos relacionados ao passado não desapareceram automaticamente.
É nesse ponto que Assassination deixa de ser apenas um filme de ação ambientado durante o período colonial.
Por trás dos tiroteios e das perseguições existe uma pergunta muito mais profunda:
a libertação aconteceu, mas o que aconteceu com as pessoas daquele passado?
02. The Age of Shadows — independência, espionagem e traição
Dirigido por Kim Jee-woon, The Age of Shadows se passa no final da década de 1920.
No centro da história estão o policial Lee Jung-chool e a organização de resistência conhecida como Uiyeoldan.
Interpretado por Song Kang-ho, Lee Jung-chool é um coreano que se tornou policial do governo colonial japonês. Já Kim Jang-ok, interpretado por Gong Yoo, pertence ao movimento de resistência e participa dos planos para destruir instalações japonesas.
A maior tensão do filme não está necessariamente nos tiroteios, mas em uma questão muito mais simples:
em quem é possível confiar?
A polícia japonesa tenta localizar os membros da resistência, enquanto os ativistas desconfiam da possibilidade de haver informantes dentro da própria organização.
Lee Jung-chool permanece entre esses dois mundos, dividido entre sua identidade, seu passado e as escolhas que precisa fazer.
O filme utiliza como referência acontecimentos históricos relacionados à Uiyeoldan e ao chamado caso Hwang Ok, mas constrói uma narrativa cinematográfica própria, combinando personagens históricos e ficcionais.
Por isso, a resistência não aparece apenas como uma história de heroísmo.
Ela é apresentada através do medo, da desconfiança, da traição e das escolhas individuais.
03. Harbin — olhando novamente para Ahn Jung-geun

Dirigido por Woo Min-ho, Harbin foi lançado em 2024 e coloca no centro da narrativa o ativista pela independência Ahn Jung-geun.
O acontecimento histórico fundamental do filme é o atentado realizado por Ahn Jung-geun em 1909, na estação de Harbin, contra Ito Hirobumi, então uma das figuras mais importantes do imperialismo japonês na Coreia.
Mas o filme não se limita ao momento do disparo.
A narrativa acompanha também os movimentos dos ativistas antes do atentado, suas preparações, a perseguição japonesa e o caminho que os leva até Harbin.
Interpretado por Hyun Bin, Ahn Jung-geun aparece não apenas como o personagem histórico que conhecemos hoje, mas como um homem diante de uma decisão que mudaria sua própria vida.
A questão não é apenas o que ele fará.
É também o que essa escolha significará para ele.
Harbin, portanto, deixa de ser apenas uma cidade onde ocorreu um acontecimento histórico.
Torna-se o lugar escolhido para uma ação que pretendia mostrar ao mundo que a Coreia ainda resistia ao domínio japonês.
04. Anarchists — uma outra face do movimento de independência

A história se passa em Xangai, na China, durante a década de 1920.
Naquele período, Xangai era um dos principais centros de atividade dos ativistas coreanos pela independência. Pessoas com diferentes ideias políticas e estratégias de resistência se encontravam na cidade.
O filme concentra-se particularmente em ativistas ligados ao anarquismo.
Os personagens compartilham o objetivo de libertar a Coreia, mas possuem diferentes opiniões sobre como isso deveria ser feito.
Essa é uma das características mais interessantes da obra.
O movimento de independência não é apresentado simplesmente como um grupo homogêneo de pessoas lutando contra o Japão.
Existiam diferentes ideologias, estratégias e visões sobre o futuro de uma Coreia independente.
Anarchists utiliza a linguagem do cinema para explorar justamente essa complexidade.
05. Anarchist from Colony — um jovem da Coreia colonial

Dirigido por Lee Joon-ik, Anarchist from Colony conta a história de Park Yeol e de sua relação com a anarquista japonesa Kaneko Fumiko.
Após o Grande Terremoto de Kanto, em 1923, o governo japonês reprimiu coreanos e socialistas enquanto tentava desviar a responsabilidade pelos massacres de coreanos ocorridos após o desastre.
Park Yeol foi preso nesse contexto.
O filme mostra a personalidade particularmente desafiadora do ativista.
Mesmo diante de um tribunal japonês, ele não escondia suas ideias. Pelo contrário, utilizava o próprio julgamento como uma oportunidade para expor a realidade enfrentada pelos coreanos sob o domínio colonial.
Kaneko Fumiko também ocupa um lugar central na narrativa.
Ela compartilhava com Park Yeol a oposição ao imperialismo japonês e desempenhou um papel importante durante o processo.
Anarchist from Colony apresenta uma dimensão diferente da resistência.
Não há necessariamente armas, grandes batalhas ou operações secretas.
Existe apenas uma pessoa que se recusa a abandonar sua própria voz.
E, naquele contexto, continuar falando também podia ser uma forma de resistência.
06. The Battle: Roar to Victory — o campo de batalha da resistência armada

Dirigido por Won Shin-yun, The Battle: Roar to Victory transforma em cinema a Batalha de Bongodong, ocorrida em 1920 na região da Manchúria, na China.
O acontecimento central é o confronto entre unidades do Exército de Independência Coreano, lideradas por figuras como Hong Beom-do e Choi Jin-dong, e as forças japonesas.
O filme mostra os combatentes coreanos atraindo as tropas japonesas para a região de Bongodong e utilizando o terreno para realizar ataques surpresa.
Um dos aspectos mais marcantes da obra é justamente o espaço onde a batalha acontece.
Não são grandes cidades ou palácios.
São montanhas, florestas, vales e trilhas.
Para os combatentes coreanos, aquele território se transforma em uma espécie de arma.
Com menos soldados e equipamentos inferiores aos das tropas japonesas, eles utilizam o conhecimento do terreno para enfrentar um adversário militarmente superior.
The Battle: Roar to Victory também apresenta uma história que não pertence apenas a grandes figuras históricas.
Ela mostra que a luta armada pela independência envolveu muitas pessoas cujos nomes não ficaram registrados na memória popular.
07. Mal-Mo-E — aqueles que protegeram uma língua

Dirigido por Eom Yu-na, Mal-Mo-E mostra justamente essa outra dimensão da resistência.
O filme conta a história de pessoas que, durante o período colonial japonês, tentaram preservar a língua coreana através da criação de um dicionário.
Durante o domínio japonês, políticas de assimilação cultural foram implementadas, incluindo restrições ao uso e ao ensino da língua coreana. Nesse contexto, estudiosos ligados à Sociedade da Língua Coreana trabalharam para registrar e preservar o idioma.
Os personagens percorrem diferentes regiões, recolhem palavras e registram seus significados para construir um dicionário.
À primeira vista, parece um trabalho acadêmico.
Mas, naquele contexto, registrar uma língua significava também preservar uma identidade cultural.
É isso que torna Mal-Mo-E particularmente interessante.
O filme mostra que alguém podia lutar pela independência de diferentes maneiras.
Alguns carregavam armas. Outros carregavam livros.
Ambas as ações estavam relacionadas à preservação da identidade coreana diante de uma tentativa de assimilação colonial.
O movimento de independência visto pelo cinema
Esses sete filmes contam a mesma história a partir de perspectivas muito diferentes.
Harbin acompanha a decisão de Ahn Jung-geun, enquanto The Battle: Roar to Victory mostra a resistência armada no campo de batalha.
The Age of Shadows explora a tensão da espionagem e da desconfiança. Anarchists apresenta diferentes correntes ideológicas dentro do movimento de independência.
Anarchist from Colony fala sobre resistência através da própria voz, enquanto Mal-Mo-E mostra como preservar uma língua também poderia representar uma forma de resistência.
E Assassination acrescenta outra questão importante: o que aconteceu depois da libertação?
Esses filmes são importantes não apenas porque recriam acontecimentos históricos.
Na Coreia do Sul, a história do movimento de independência continua profundamente conectada ao presente.
A libertação de 1945 é celebrada todos os anos em 15 de agosto, no Dia da Libertação Nacional, conhecido como Gwangbokjeol. Mas a história da independência não começou nem terminou naquele dia.
Durante décadas, inúmeras pessoas atuaram de maneiras diferentes para recuperar a soberania da Coreia.
O cinema não consegue reproduzir toda essa complexidade.
Os roteiros adaptam acontecimentos, modificam personagens, reorganizam cronologias e criam situações dramáticas.
Mas o cinema possui uma capacidade particular.
Ele pode transformar nomes e datas encontrados em livros de história em rostos, vozes, medo e escolhas.
Ao acompanhar esses sete filmes, encontramos não apenas uma grande narrativa sobre a independência, mas muitas pessoas diferentes vivendo o mesmo período histórico de maneiras diferentes.
E é justamente nesse ponto que a história deixa de ser apenas um registro do passado e volta a ser uma história que pode ser compreendida pelo público de hoje.

CLOUD INSIGHT
O movimento de independência coreano não pode ser explicado através de uma única imagem.
Alguns pegaram em armas. Outros atravessaram fronteiras. Alguns enfrentaram tribunais, enquanto outros registraram uma língua que corria o risco de desaparecer.
Os sete filmes mostram justamente essa diversidade.
A independência não foi conquistada de uma única maneira.
O cinema não é a própria história, mas pode funcionar como uma janela através da qual novas gerações reencontram pessoas e escolhas que poderiam desaparecer da memória.
E, através dessa janela, podemos perceber quantas vidas diferentes existem por trás de uma palavra que parece tão simples: independência.
Onde assistir no Brasil?
Atualmente, grande parte dos filmes desta seleção não está disponível nos principais serviços de streaming do Brasil. A disponibilidade pode mudar conforme os contratos de distribuição e os catálogos de cada plataforma.
